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Economia na conta · 16 de agosto de 2026

El Niño 2026: o que muda de verdade na sua usina em Goiás

A previsão é de super El Niño com ondas de calor de agosto a dezembro. Mais calor não significa mais geração — significa mais consumo no fim da tarde, exatamente quando a usina para de gerar.

Matheus de Moura GomesEngenheiro Eletricista · CREA 1021563641D-GO

Outubro do ano passado, onda de calor em Goiás. O consumo residencial subiu 14% e a média por unidade consumidora bateu 240 kWh, a maior já registrada no estado. Quem tinha usina instalada olhou a conta daquele mês e não entendeu o número.

O motivo: o calor não aumenta o seu consumo no meio do dia. Ele aumenta à noite — e à noite a usina gera zero.

Por que acontece

O INMET e o CPTEC confirmaram o retorno do El Niño, com chance acima de 90% de se firmar e pico previsto entre outubro e janeiro. Os modelos internacionais colocam o evento entre os mais fortes desde 1950.

Para Goiás, o CEMPA-Cerrado da Universidade Federal de Goiás projeta alta probabilidade de ondas de calor entre agosto e dezembro, veranicos de 7 a 15 dias sem chuva e uma estação chuvosa atrasada e irregular.

A distribuidora já se preparou. Numa matéria de 29 de julho, o gerente do Centro de Operações Integradas da Equatorial Goiás descreveu o padrão de consumo em onda de calor:

A demanda cresce de forma muito significativa, principalmente no fim da tarde e no início da noite.

É o horário em que as pessoas chegam em casa e ligam o ar-condicionado numa casa que acumulou calor o dia inteiro. Às 19h, a geração fotovoltaica já é nula.

Esse consumo extra vem 100% da rede. Ele não é abatido na hora: é abatido depois, com o crédito que a usina injetou durante o dia. E desde a Lei 14.300 o crédito injetado paga uma parcela da tarifa de uso do fio, enquanto a energia consumida no mesmo instante em que é gerada continua valendo integralmente.

Por isso a pergunta que dimensiona uma usina não é quanto você consome. É quando.

Mais sol não compensa o calor

Existe a crença de que céu aberto e sol forte deixam a usina mais produtiva, e ela ignora metade da física. O que gera energia é a irradiância. A temperatura do módulo é outra variável, e trabalha contra.

Todo módulo é ensaiado a 25 °C de célula — não do ar. Num telhado de Goiás em outubro, a célula passa muito disso, e o módulo entrega menos do que diz a etiqueta. O número está na ficha técnica, no campo coeficiente de temperatura de Pmáx, sempre negativo, em %/°C.

Mais dias de céu aberto ajudam. Módulo mais quente atrapalha. Os dois acontecem juntos, e um projeto sério considera os dois no dimensionamento.

O veranico termina em tempestade

Estação chuvosa irregular não significa menos chuva no ano — significa a mesma chuva concentrada em menos dias. E chuva que cai depois de duas semanas de calor acumulado não cai mansa: cai como tempestade isolada, com rajada de vento e, às vezes, granizo.

Aí a conversa deixa de ser sobre geração e passa a ser sobre estrutura. O que segura o módulo numa rajada é o perfil, o grampo e o ponto de fixação — se pegou a terça ou apenas a telha. Um sistema fotovoltaico é uma superfície de captação de vento multiplicada por dezenas de módulos, e o esforço de vento é cálculo de projeto, não detalhe de instalação.

Some a isso a parte elétrica que a temporada cobra: aterramento contínuo, dispositivo de proteção contra surtos dimensionado e equipotencialização feita. Nada disso aparece num orçamento cotado por preço de kWp.

O que fazer, na prática

1. Olhe o histórico de outubro e novembro na sua conta. Se o consumo daqueles meses destoa dos demais, você já mediu o efeito da onda de calor na sua casa. É esse número que deve entrar no dimensionamento, não a média anual.

2. Peça o coeficiente de temperatura do módulo que estão te vendendo. Está na ficha técnica e leva dez segundos para ser respondido. Quem não souber responder também não calculou a perda por temperatura no seu projeto.

3. Pergunte como a fixação foi calculada. Não “que estrutura vocês usam”, mas como o esforço de vento foi considerado para o seu telhado, na sua altura, com a sua inclinação.

4. Confira se existe projeto com ART, e não só orçamento. Proteção contra surtos, aterramento e fixação são itens de projeto executivo. Orçamento por kWp não os descreve porque não precisa descrever.

Para uma estimativa inicial do que cabe no seu padrão de entrada, o dimensionador solar deste site resolve antes de qualquer visita.


Nenhum desses três pontos é motivo para não instalar energia solar. São motivo para dimensionar sabendo — que é, no fim, a única diferença real entre um projeto e um kit.

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